Quando eu soube que a CNN entrevistaria Roberta Luchsinger poucos dias antes das eleições, fiquei na dúvida: ou ela fora convencida ($$$) pelo PT para negar tudo ou, abandonada, resolveu jogar tudo no ventilador. Aconteceu a segunda hipótese. A mulher estava simplesmente possessa.
Se eu tivesse visto o vídeo que André Janones havia publicado poucas horas antes, já saberia a resposta. Ele havia dito à militância que, dali a pouco, Lula receberia “o ataque mais baixo da história da política brasileira”. Dali mesmo, já lançou a ordem: “Não comentem, você não vai nem ler a matéria, porque ler já é engajar (...) Então, a orientação é essa. No WhatsApp comandado por Janones, , a ordem circulou em versão enxuta: não abra, não leia, não clique, não comente. Não deu muito certo. Só se fala disso.
É a estratégia do avestruz (que acabou colocando a cabeça pra fora). Segundo o Google Trends, a busca pelo nome de Roberta saiu de quase zero para mais de 50 mil pesquisas durante a entrevista. Claro! Nada atiça tanto a curiosidade humana quanto uma proibição. Quem manda não ler é porque já leu – e todo mundo vai querer saber por que não pode ler também.
Luchsinger apareceu na entrevista buscando amenizar sua imagem: usava uma blusa florida, bem feminina e delicada, de mangas bufantes, da marca australiana Zimmermann. Cabelo arrumado, maquiagem. A estética era claramente uma preocupação para ela, que sempre pareceu ser muito vaidosa, inclusive no âmbito social, ao mencionar com frequência que era “sócia de Fábio”.
Segundo a Veja, em março, um emissário de Roberta teria avisado auxiliares de Lula que ela não “cairia sozinha” se fosse abandonada. Em agosto, na Globo, Lula disse: “não conheço essa moça, nunca vi essa moça na minha vida”. Surgiram ao menos 12 fotos com ela.
Há uma máxima antiga da literatura inglesa: o inferno não tem fúria comparável à de uma mulher desprezada. Lula chamara Roberta de “pilantra” em pelo menos três oportunidades, a primeira delas durante uma entrevista no Jornal Nacional. Lembro bem do pensamento que me ocorreu quando vi: “ela tem pinta de que não vai engolir essa”. Logo depois, saiu na imprensa a informação de que o entorno de Lula estaria preocupado com a reação de Roberta, que passou a ser chamada de “mulher-bomba”. A preocupação fazia sentido: ela repetiu “pilantra” a cada resposta. Parecia ter ruminado a ofensa desde o dia em que Lula a pronunciou no horário nobre.
A história do Brasil conhece o enredo. No início de 2000, depois da separação, Nicéa Camargo, então Nicéa Pitta, foi à TV acusar o ex-marido, o prefeito de São Paulo Celso Pitta, de pagar mesada a vereadores e de manter dinheiro no exterior. O poder tentou desqualificar a mulher. ACM a chamou de “louca” e “prostituta” (acabou condenado a indenizá-la). Anos depois, documentos da CPI do Banestado confirmaram a conta que ela dizia existir. Ressentimento é um baita combustível para desfechos políticos espetaculares.
Logo no início da entrevista, Roberta diz que nem sabe mais se pode se considerar amiga de Lulinha, já que, depois de muitos anos de amizade, ele nunca a defendeu. Ela disse:
“a partir do momento em que ele se cala, ele não é meu amigo. Eu fui amiga dele (...) o papel do amigo é ligar e falar a verdade: ‘olha, pai, ela não é uma pilantra. A polícia está investigando. Se ela fez alguma coisa errada, se eu fiz alguma coisa errada, isso daí vai ser provado. A polícia está aí para investigar’”.
Vários nomes conhecidos apareceram de relance: Marcola (Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete de Lula), Swedenberger Barbosa, o Berger, ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde. Foram citados, não destrinchados. É a técnica do trailer: mostra-se o bastante para o público querer o filme e guarda-se o final para a estreia – que será a delação.
Houve também a inserção de um nome novo nessa novela: Amauri Pinha. Perguntada se sabia da participação de Lulinha no acerto do contrato de uma construtora com o governo federal, Roberta respondeu que sim e apontou “o vizinho dele”, presidente do Conselho de Administração da Empresa Construtora Brasil (ECB), do grupo português Mota-Engil, desde janeiro de 2025. Segundo ela, a empresa acumula R$ 2 bilhões em contratos desde então, e isso “tem que ser questionado”.
Atenção: ela não disse que há ilegalidade. Lançou a pergunta e a deixou na mesa. O Mota-Engil não se manifestou. A Secom veio dizer que “não existe nenhum contrato do governo federal com a Roberta”, como se alguém tivesse dito o contrário (a própria Roberta afirma que nunca teve contrato público). A pergunta era sobre a construtora. Para quem quiser ir atrás: o Poder360 lembra que a ECB tem um contrato de R$ 4,4 bilhões com a Petrobras na Reduc, assinado em 2025, e que a Mota-Engil venceu em 2026 o leilão da PPP do túnel Santos-Guarujá. Pode estar tudo regular. Mas “tudo regular” é conclusão que se tira depois de investigar, não antes de perguntar.
Roberta ainda lançou uma bomba ideológica no colo do seu agora desafeto. Ela disse que Lula “preservou todos os homens e me jogou, a única mulher, aos leões”. E foi além: um homem desses não pode falar de feminismo, de feminicídio ou de machismo, porque ele é o próprio machista. E contou, de brinde, que as duas noras do presidente (duas mulheres da família dele!) disseram a ela que ela não é pilantra. Lula, não.
Pensem na construção da frase. O filho foi poupado. Marcola foi poupado. Os ministros foram poupados. Sobrou a mulher, com duas filhas, rebatizada de “Vorcaro feminino” (note que, para caber na comparação, ela precisou do “feminino”). Janja fez tanto esforço para tentar colar em Lula a imagem de protetor das mulheres, para agora chegar Roberta e estragar tudo. O marqueteiro, uma hora dessas, a oito dias da urna, deve estar tendo uma síncope.
Outro trecho vai render. Roberta disse que um presidente que não sabe o que se passa na antessala dele, “ou ele é um mentiroso” [...] “ou ele está senil, esclerosado”, repetindo o que Ciro Nogueira já havia sugerido outrora. Mais adiante, afirmou que Lula sabe, sim, que ela é a melhor amiga do filho, que o convívio era diário, no Natal, no Ano Novo, no Carnaval, e que, se ele esqueceu, talvez seja a idade. Para ilustrar, ela fez questão de lembrar que Lula acabara de dizer que não sabia que o Bolsa Família não havia sido reajustado.
Roberta usa a lógica: se o presidente sabia e negou, mentiu. Se não sabia, não está no comando de quem frequenta a antessala do Palácio. E se esqueceu, o problema é de outra ordem. Qualquer das três hipóteses é péssima para quem pede mais quatro anos.
Ela avisou que quer delatar e que não vai poupar nem Lula nem Lulinha. Eu acho que fará. O cálculo é simples: quem não tem pai presidente nem mãe presidente precisa de acordo.
Só não esperem milagre antes do dia 25. Delação se negocia, se formaliza e se homologa, e ainda precisa de corroboração, porque ninguém é condenado só pela palavra do delator.
Roberta não é santa. É investigada pela PF por suposto tráfico de influência e precisará provar cada vírgula. Mas delator nunca é santo: se fosse, não teria o que delatar.
Roberta afirma estar sendo ameaçada. Eu jamais duvidaria disso. Imagine abrir o celular e encontrar, em média, cinquenta ameaças de morte por dia. Foi o que ela disse na CNN. Segundo ela, as duas filhas, uma delas menor de idade, também são alvo de ameaças de morte e de estupro desde que Lula a chamou de “pilantra” em rede nacional. E avisou: depois da entrevista, esse número tende a explodir. Ela diz, com todas as letras: “se alguma coisa acontecer comigo ou com minhas filhas, a culpa é do Lula”.
Ainda nesse capítulo sobre as ameaças, Roberta contou que uma das filhas sofreu um acidente de carro em São Bernardo do Campo, há cerca de duas semanas, e que ela sequer pôde ir ao local, porque não pode sair de São Paulo. “Até agora é um mistério”, disse. A polícia investiga. Contou ainda que ninguém ligou para saber se a filha estava viva ou morta, e que fará o que for preciso, como mãe, para protegê-la.
Ela não afirmou que foi um atentado, e nem deu detalhes do ocorrido. O fato é que, se o acidente foi estranho, é óbvio que a hipótese não pode ser descartada, considerando as circunstâncias de Roberta. Quem olha para o carro acidentado da filha e, no meio de tudo isso, não descarta que aquilo seja mais que um acidente, está dizendo sem dizer que do outro lado há gente capaz de mandar recados. Ela usou as seguintes expressões: “boi de piranha”, “X na testa”. Ela não disse que enxerga o PT como uma máfia, mas é isso que me parece possível extrair de suas palavras.
Os aliados do presidente dirão que ela instrumentaliza a tragédia da filha para influenciar a eleição. Podem dizer. Mas continuam sem responder à única pergunta que interessa: alguém já checou o acidente? Se o medo for exagero, a perícia pode dissipar. Se não for, o país precisa saber.
Esquerdistas sentiram o baque, mas não se fizeram de rogados. Foram às redes sociais dizer que Luchsinger não falou nada de mais, que não apresentou prova alguma. Só esqueceram de dizer que ela não falou mais aos jornalistas porque sua intenção é – como disse com todas as letras – obter um acordo de delação premiada. Se ela entregasse tudo ali, de graça, aos jornalistas, não teria o que oferecer em uma futura delação. Quem despeja tudo na televisão queima a munição que deveria oferecer ao Estado. Óbvio ululante. Roberta disse que tem detalhes que não estão nas mensagens e que colaborará quando a Justiça entender oportuno.
Congressistas pediram a inclusão de Roberta no programa federal de proteção a testemunhas, com o senador eleito Van Hattem à frente.
Roberta, claramente, também falou para se proteger. No Brasil, quem sabe demais e fala de menos tem uma grande predisposição a ter sua vida abruptamente interrompida. Ao falar em rede nacional, Roberta se tornou alguém que não pode simplesmente sumir sem que milhões perguntem para onde foi. Em outras palavras: ela não quer ser “celsodanielizada”.
Roberta desabafou, vingou-se, protegeu-se, lavou a alma com uma série de adjetivos contra Lula que, certamente, são endossadas por grande parte dos brasileiros: mentiroso, covarde, mau-caráter, senil, esclerosado, canalha. Foi uma metralhadora. Que venha a delação premiada.