Acabou a eleição, e o Regime agradece: a saída pelas urnas, a única que muita gente ainda defendia, fechou por mais quatro anos. Sobra a pergunta que Gene Sharp passou a vida respondendo: o que fazer quando a via institucional se esgota e a violência não é opção? Este texto é um guia de leitura de seis obras dele, para quem quer começar a estudar o assunto antes de agir. Como dizia o Prof. Olavo: é urgente ter paciência. Primeiro é preciso estudar, depois agir.
A sobrevida do Regime
No dia 25 de outubro, o TSE anunciou a reeleição de Lula, com 51,79% dos votos válidos. Para quem entende, como eu, que o Brasil vive sob uma ditadura de toga (um Supremo que investiga, acusa e julga dentro do mesmo inquérito, que viola direitos humanos, que persegue opositores políticos e que não responde a ninguém), a notícia vai além da mera derrota de um candidato que resolveu concorrer. Não foi só isso. O que ocorreu foi a sobrevida de um sistema.
Vejamos. Quem pode conter o STF tem duas ferramentas na Constituição: a caneta presidencial, que nomeia os ministros (art. 101), e o Senado, que os aprova e, no limite, os julga por crime de responsabilidade (art. 52, II). Quatro anos a mais de um Executivo que convive muito bem com a Corte, convenhamos, são quatro anos sem qualquer nomeação de contrapeso, sem pedido de impeachment de ministro e sem PEC que limite decisões monocráticas.
A pergunta honesta, portanto, não é quem vai nos salvar. É o que nós, as donas Jupiras e os seus Josés, podemos fazer.
Sharp responde com uma frase que vale um livro inteiro. Segundo ele, costuma-se crer que, nesses conflitos, só há dois caminhos: a submissão passiva ou a ação violenta. "Há, porém, uma terceira alternativa: a luta por meio da ação não violenta" (How Nonviolent Struggle Works, introdução, tradução minha). E ele aponta a razão: luta não violenta é muito mais efetiva que a luta violenta.
A lição do velho dos macacos
No capítulo 3 de From Dictatorship to Democracy, Sharp conta uma fábula chinesa do século XIV, de Liu Ji. No estado de Chu, um velho vivia de manter macacos a seu serviço. Todo dia mandava o mais velho levar os outros à montanha para colher frutas, e cada macaco entregava a ele um décimo da colheita. Quem não entregasse apanhava. Um dia, um macaco pequeno perguntou: foi o velho quem plantou as árvores? Os outros responderam que não, que elas nasceram sozinhas. Então, continuou ele, por que dependemos do velho? Por que todos temos de servi-lo? Antes que terminasse a frase, os macacos "despertaram". Naquela noite derrubaram a cerca, levaram as frutas e nunca mais voltaram. O velho morreu de fome.
A moral é a tese central de Sharp, e é simples: ditadores precisam da ajuda dos governados. O poder deles tem seis fontes (autoridade, recursos humanos, habilidades e conhecimento, fatores intangíveis, recursos materiais e sanções), e todas dependem de que a população e as instituições continuem cooperando. Quando a cooperação recua, diz ele, o poder "morre de fome política" (From Dictatorship to Democracy, cap. 3, tradução minha).
A ideia não é dele. Em The Politics of Nonviolent Action (volume 1, "Poder e Luta"), Sharp lembra Étienne de La Boétie, no século XVI: não apoie o tirano e você o verá "como um grande colosso cuja base foi roubada", afundando pelo próprio peso. E lembra Maquiavel e John Austin, que chegaram a conclusões parecidas.
Agora aplique ao caso. Quem coopera com o Regime? A resposta honesta não é "meia dúzia de ministros". É uma cadeia inteira de gente que executa, valida, divulga e aplaude: servidores, advocacia, academia, imprensa, plataformas, tribunais inferiores. Cada elo é uma decisão individual de colaborar, e decisão individual pode mudar. (Sim, alguns elos também têm medo. Sharp sabe disso, e trata do medo adiante.)
Roteiro de leitura
Sharp (1928–2018) escreveu muito, mas quatro textos formam a escada principal, do mais curto e prático ao mais volumoso. Dois outros livros entram como complemento, logo abaixo. Nas citações ao longo do texto, indico o título original em itálico e o capítulo; as traduções são minhas.
Da Ditadura à Democracia (From Dictatorship to Democracy, 1993). Comece por aqui. Foi escrito a pedido de um democrata birmanês exilado, o editor U Tin Maung Win, e publicado em Bangkok. Sharp não conhecia Mianmar bem o bastante e fez uma análise genérica, que acabou lida em muitos outros países. Os capítulos 2 a 5 são o núcleo: os perigos da negociação (2), a origem do poder (3), as 17 fraquezas das ditaduras (4) e o exercício do poder pela desobediência política (5). Os capítulos 6 e 7 tratam de planejamento estratégico, e os finais, da execução da estratégia e da construção de uma democracia duradoura. Traz, no apêndice, a lista das 198 formas de ação não violenta.
- Como Funciona a Luta Não Violenta (How Nonviolent Struggle Works, 2013). Versão condensada da obra maior. Leia para entender por que as pessoas obedecem (hábito, medo de sanções, obrigação moral, interesse próprio, entre outras razões), por que a obediência é "essencialmente voluntária" e como funciona o jiu-jitsu político: a repressão brutal contra um movimento disciplinado e não violento se volta contra quem a pratica. Apresenta também os quatro mecanismos de mudança: conversão (o mais raro), acomodação, coerção não violenta e desintegração.
- Autoliberação (Self-Liberation, 2009, com Jamila Raqib). É o manual de planejamento. Sua tese: é "tolice, e potencialmente desastroso" iniciar uma luta, ou sequer tentar preparar uma grande estratégia, sem três tipos de conhecimento — da situação de conflito, da técnica da ação não violenta e do pensamento estratégico. E os três precisam estar na cabeça das mesmas pessoas, não espalhados por três grupos que se reunem numa sala.
- A Política da Ação Não Violenta (The Politics of Nonviolent Action, 1973). A obra-mãe, em três volumes: Poder e Luta, Os Métodos da Ação Não Violenta e A Dinâmica da Ação Não Violenta. A cópia que tenho passa de 900 páginas. Não se lê de uma vez; consulta-se. O segundo volume cataloga as 198 formas de ação, em três grandes famílias: protesto e persuasão, não cooperação (social, econômica e política) e intervenção não violenta.
Complementos:
5. Poder Social e Liberdade Política (Social Power and Political Freedom, 1980). Coletânea de doze capítulos, de 1980, com introdução do senador Mark Hatfield, posterior à obra-mãe. O capítulo 2 é o mais importante para nós: segundo Sharp, as formas institucionais de governo são "secundárias em importância" frente à distribuição real do poder na sociedade, e uma constituição, sozinha, não basta para conter quem está disposto a violar as regras. Leia também o capítulo 4 ("Enfrentando ditaduras com confiança"), o 5 (desobediência civil em uma democracia; atenção: ela implica violar a lei, e não é o que este texto propõe), o 7 (os problemas estratégicos da resistência sul-africana) e o 12 (fortalecimento popular), além do Apêndice B, com vinte passos para desenvolver e avaliar sanções não violentas. Leia depois do nº 2, quando a pergunta passar de como lutar para que tipo de sociedade impede o retorno da tirania.
- Travando a Luta Não Violenta (Waging Nonviolent Struggle, 2005). Escrito com Joshua Paulson, com mais de 500 páginas e quatro partes: a base teórica (poder, técnica, métodos); 23 casos do século XX; a dinâmica da luta (repressão, disciplina, jiu-jitsu político, quatro mecanismos, redistribuição do poder); e o planejamento estratégico, com um modelo de "estimativa estratégica" no Apêndice A. Para o nosso tema, interessam os casos de golpes e ditaduras: a resistência civil ao golpe de Kapp na Alemanha (1920), o golpe militar na França (1961), o golpe linha-dura na URSS (1991), a defesa da democracia na Tailândia (1992) e a queda do ditador na Sérvia (1996–2000). Leia depois do nº 3, como ponte entre o manual e a história.
Um conselho de quem já viu muito leitor desistir na primeira página de um livro grosso: leiam o nº 1 de ponta a ponta, o nº 3 com lápis na mão e deixem o nº 4 para depois.
Os cinco erros que Sharp não perdoa
(i) Negociar o inegociável. "Resistência, e não negociação, é essencial para a mudança em conflitos nos quais questões fundamentais estão em jogo" (From Dictatorship to Democracy, cap. 2, tradução minha). Para ele, o resultado de uma negociação não reflete quem tem razão, e sim quem tem poder. Quem chama de "pacificação" o aperto de mão com o Regime, sem ter antes mudado a correlação de forças, está obtendo uma paz que, como adverte Sharp no mesmo capítulo, "é muitas vezes apenas a paz da prisão ou da sepultura".
(ii) Esperar um salvador de fora. O capítulo 7 de From Dictatorship to Democracy é claro: a força principal da luta "deve vir de dentro do país". Pressão internacional, sim, mas de forma suplementar, e na medida em que a luta interna a estimula. Nenhuma denúncia no exterior, por mais bem escrita, substitui o povo organizado em casa.
(iii) Misturar violência com resistência civil. A disciplina não violenta "deve ser mantida apesar das provocações e brutalidades" do regime (From Dictatorship to Democracy, cap. 5). O motivo é estratégico, não só moral: a violência desloca a disputa para o terreno em que o Regime é mais forte, e destrói o jiu-jitsu político, que depende de o público ver a brutalidade contra quem não revida. Este ponto não admite meio-termo. Quem prega ruptura armada ou golpe não está lendo Sharp, está lendo outra coisa. Em Waging Nonviolent Struggle (cap. 6), o golpe de Kapp na Alemanha de 1920 cai diante da não cooperação civil: greve geral e servidores que se recusaram a assinar deixaram os golpistas sem sequer o dinheiro para pagar os soldados.
(iv) Improvisar. Os levantes do passado, diz o capítulo 6 de From Dictatorship to Democracy, foram "quase sempre não planejados e essencialmente acidentais", e por isso muitos colapsaram diante de repressões imprevistas. Não se deve confundir entusiasmo com estratégia. Pessoas excessivamente emocionadas acabam, muitas vezes, atrapalhando o processo. Também não se deve apostar em um ou dois métodos (greve e passeata, por exemplo); Sharp lista 198 (apêndice do mesmo livro).
(v) Mirar só a queda do tirano. O objetivo, escreve ele no capítulo 6 de From Dictatorship to Democracy, "não é simplesmente destruir a ditadura atual, mas instalar um sistema democrático". Quem só quer derrubar corre o risco de produzir outra tirania. Para o leitor brasileiro, isso quer dizer ter resposta pronta para a pergunta: o que põe no lugar? (Resposta curta e mínima: tribunais com competência limitada, publicidade dos atos e responsabilização de quem os pratica. O resto é conversa para outro texto.) Olavo de Carvalho, citando Nietzsche, sempre dizia que “só se destrói completamente aquilo que se substitui”.
Por onde começar no Brasil
Nada do que segue é receita de Sharp, que insistia que não existe projeto único para todas as lutas. São passos que decorrem dos textos, dentro da lei e sem violência.
a) Estudar em grupo. Forme um círculo de leitura. Começar por Da Ditadura à Democracia, um capítulo por encontro, já é um ato de organização. Além de aprender, laços de solidariedade são formados, o que é essencial.
b) Mapear os pilares. Quem executa, valida e divulga as decisões que você considera arbitrárias? Onde a cooperação pode ser legalmente retirada ou condicionada? Quais são as instituições públicas e da sociedade civil que apoiam o regime?
c) Fortalecer instituições independentes. Sharp insiste que associações, igrejas, entidades profissionais, imprensa e escolas fora do controle estatal são a base da resistência (From Dictatorship to Democracy, cap. 3). Se elas foram cooptadas, reconquistá-las ou criar novas é parte da luta. Em Social Power and Political Freedom (cap. 2), Sharp vai além: sem uma sociedade com poder distribuído e capaz de agir por conta própria, nem a constituição nem os mecanismos formais de controle seguram quem decide ignorá-los. Esperar que o Senado ou uma PEC resolvam o problema, sem gente organizada por trás, é um erro.
d) Escolher campanhas limitadas, com objetivo claro. Em vez de "derrubar o Regime", uma meta que se possa ganhar e medir: a publicidade dos inquéritos, o fim das decisões monocráticas em matéria de liberdade de expressão, a aplicação da Lei da Dosimetria, uma PEC específica. Vitória pequena dá confiança para a seguinte.
e) Agir à luz do dia. Sharp aponta que o sigilo alimenta o medo e a desconfiança dentro do movimento, enquanto a abertura passa imagem de força (From Dictatorship to Democracy, cap. 5). As exceções (publicações clandestinas, coleta de informação) são raras, e em geral desnecessárias onde a lei ainda protege quem fala.
f) Treinar disciplina. Quem for à rua tem de saber, de antemão, que não vai revidar. Um único episódio de violência vale mais para o adversário do que mil discursos. O 8 de janeiro que o diga.
O velho dos macacos só dura enquanto os macacos não perguntam. Leiam. Estudem. Organizem-se. E sem violência, nem por provocação, nem por desespero.