O Centrão perdeu a eleição e, como todo mau perdedor de pelada de rua, quer agora mudar a regra do impedimento com a bola rolando.
A notícia saiu na imprensa ontem: lideranças do Centrão, com a bênção de Hugo Motta na presidência da Câmara e a mãozinha de Davi Alcolumbre no Senado, articulam aprovar o voto distrital misto ainda em novembro, antes que a nova legislatura tome posse, em fevereiro de 2027.[1] A pressa tem explicação, e a própria reportagem a entrega de bandeja: os dirigentes avaliam que o Congresso que chega terá mais parlamentares beneficiados pelo sistema atual. Traduzindo do politiquês para o português: o PL saiu das urnas de outubro com 121 cadeiras, a maior bancada da Casa,[2] e a turma que vive de cargo, emenda e ministério chegou à conclusão de que o problema não é ela, mas sim o eleitor.
Então vamos mudar o eleitor de lugar. Ou melhor: vamos tirar a caneta da mão dele.
A reunião que deu a largada foi no dia 28 de outubro, na residência oficial da Câmara, com PSB, União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, a federação PSDB-Cidadania e Podemos. PL e PT, as duas maiores bancadas, não estavam na sala.[3] Gilberto Kassab anunciou que o PSD “fechou questão” e, segundo a imprensa, ameaça expulsar quem discordar.[4] (Democracia interna é isso aí: discorde e vá embora.) E quem apareceu em agosto para defender exatamente o mesmo modelo? Ele mesmo, o imperador. Alexandre de Moraes disse que o sistema atual “faliu” e que defende o distrital misto desde os tempos de promotor.[5]
Quando Kassab, o Centrão e a besta-fera concordam sobre como você deve votar, temos aqui um sintoma. A prudência recomenda receber as ideias de tais figuras não apenas com ceticismo, mas com uma (altamente justificável) distância higiênica.
Um Congresso em fim de mandato, com boa parte dos deputados de malas prontas, quer aprovar uma emenda constitucional (que exige três quintos dos votos, em dois turnos, em cada Casa, nos termos do art. 60, § 2º, da Constituição) para redesenhar a forma como você vai escolher seus representantes pelas próximas décadas. É o inquilino que já devolveu as chaves e resolve derrubar a parede da sala antes de sair.
Mas, antes de malhar o Judas, vamos entender a manobra. O truque inteiro depende de você não saber a diferença entre uma coisa e outra.