Ludmila Lins Grilo
Politics • Culture • Law & Crime
Verdades inconvenientes.
Direito, filosofia, cultura em geral.
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Senadora Teresa Leitão (PT-PE) pergunta sobre a regulação da inteligência artificial, e Dino responde que a Constituição impõe isso no art. 222 p. 3°.

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Por que houve operação da Polícia Federal contra Carlos Bolsonaro

Ontem, Jair Bolsonaro fez uma live que colocou mais de 400 mil pessoas assistindo ao vivo, o que coloca Lula em situação constrangedora, já que, por falta de público, resolveu não fazer mais lives.

Esse seria o grande assunto de hoje, claro, mas Moraes foi rápido em arrumar a cortina de fumaça, disparando um mandado de busca e apreensão assinado às pressas, entre meia-noite e 6 da manhã, segundo informou Eduardo Bolsonaro.

O que pode ser mais constrangedor (e ilegal) do que um ministro agindo politicamente para prejudicar inimigos?

Assim, o sucesso de Bolsonaro perante o público, apesar de todo esforço midiático e da máquina pública, ficaria abafado, mas o povo já entendeu como funciona o regime. Não tem mais bobo aqui.

00:01:29
Erro no Locals

Pessoal, novamente o Locals falhou na transmissão da live de hoje. Peço desculpas. De qualquer forma, está disponível lá no YouTube. Estou pensando seriamente de deixar de transmitir por aqui, em razão da quantidade de falhas desta rede.

Erro no Locals

Olá, pessoal! Acabei de perceber que a live com Alexandre Kunz deu erro aqui no Locals, pra variar… de qualquer forma, vocês poderão assisti-la no YouTube! 🥲

Olá, pessoal! Ontem a live infelizmente não funcionou no Locals, enquanto que no YouTube tudo transcorreu normalmente. O Locals nem sempre funciona bem, espero que melhore pro futuro. Daqui pra frente, acaso a live não rode por aqui, corram lá pro TV Injustiça no YouTube, OK?

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SISTEMA DISTRITAL MISTO: VOCÊ VOTA, O CACIQUE ESCOLHE
O Centrão perdeu nas urnas e quer ganhar mudando a regra. Uma aula sobre sistemas eleitorais, uma lembrança do Império e a defesa do voto distrital puro, com candidaturas independentes.

O Centrão perdeu a eleição e, como todo mau perdedor de pelada de rua, quer agora mudar a regra do impedimento com a bola rolando.

A notícia saiu na imprensa ontem: lideranças do Centrão, com a bênção de Hugo Motta na presidência da Câmara e a mãozinha de Davi Alcolumbre no Senado, articulam aprovar o voto distrital misto ainda em novembro, antes que a nova legislatura tome posse, em fevereiro de 2027.[1] A pressa tem explicação, e a própria reportagem a entrega de bandeja: os dirigentes avaliam que o Congresso que chega terá mais parlamentares beneficiados pelo sistema atual. Traduzindo do politiquês para o português: o PL saiu das urnas de outubro com 121 cadeiras, a maior bancada da Casa,[2] e a turma que vive de cargo, emenda e ministério chegou à conclusão de que o problema não é ela, mas sim o eleitor.

Então vamos mudar o eleitor de lugar. Ou melhor: vamos tirar a caneta da mão dele.

A reunião que deu a largada foi no dia 28 de outubro, na residência oficial da Câmara, com PSB, União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, a federação PSDB-Cidadania e Podemos. PL e PT, as duas maiores bancadas, não estavam na sala.[3] Gilberto Kassab anunciou que o PSD “fechou questão” e, segundo a imprensa, ameaça expulsar quem discordar.[4] (Democracia interna é isso aí: discorde e vá embora.) E quem apareceu em agosto para defender exatamente o mesmo modelo? Ele mesmo, o imperador. Alexandre de Moraes disse que o sistema atual “faliu” e que defende o distrital misto desde os tempos de promotor.[5]

Quando Kassab, o Centrão e a besta-fera concordam sobre como você deve votar, temos aqui um sintoma. A prudência recomenda receber as ideias de tais figuras não apenas com ceticismo, mas com uma (altamente justificável) distância higiênica.

Um Congresso em fim de mandato, com boa parte dos deputados de malas prontas, quer aprovar uma emenda constitucional (que exige três quintos dos votos, em dois turnos, em cada Casa, nos termos do art. 60, § 2º, da Constituição) para redesenhar a forma como você vai escolher seus representantes pelas próximas décadas. É o inquilino que já devolveu as chaves e resolve derrubar a parede da sala antes de sair.

Mas, antes de malhar o Judas, vamos entender a manobra. O truque inteiro depende de você não saber a diferença entre uma coisa e outra.

Os sistemas eleitorais, explicados para quem tem mais o que fazer

Existem, grosso modo, duas grandes famílias de sistemas eleitorais (a majoritária e a proporcional) e uma porção de híbridos. Vejamos.
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Os macacos de Chu: um guia para a luta pacífica contra o regime brasileiro

Acabou a eleição, e o Regime agradece: a saída pelas urnas, a única que muita gente ainda defendia, fechou por mais quatro anos. Sobra a pergunta que Gene Sharp passou a vida respondendo: o que fazer quando a via institucional se esgota e a violência não é opção? Este texto é um guia de leitura de seis obras dele, para quem quer começar a estudar o assunto antes de agir. Como dizia o Prof. Olavo: é urgente ter paciência. Primeiro é preciso estudar, depois agir.

 A sobrevida do Regime

 No dia 25 de outubro, o TSE anunciou a reeleição de Lula, com 51,79% dos votos válidos. Para quem entende, como eu, que o Brasil vive sob uma ditadura de toga (um Supremo que investiga, acusa e julga dentro do mesmo inquérito, que viola direitos humanos, que persegue opositores políticos e que não responde a ninguém), a notícia vai além da mera derrota de um candidato que resolveu concorrer. Não foi só isso. O que ocorreu foi a sobrevida de um sistema.

 Vejamos. Quem pode conter o STF tem duas ferramentas na Constituição: a caneta presidencial, que nomeia os ministros (art. 101), e o Senado, que os aprova e, no limite, os julga por crime de responsabilidade (art. 52, II). Quatro anos a mais de um Executivo que convive muito bem com a Corte, convenhamos, são quatro anos sem qualquer nomeação de contrapeso, sem pedido de impeachment de ministro e sem PEC que limite decisões monocráticas.

 A pergunta honesta, portanto, não é quem vai nos salvar. É o que nós, as donas Jupiras e os seus Josés, podemos fazer.

 Sharp responde com uma frase que vale um livro inteiro. Segundo ele, costuma-se crer que, nesses conflitos, só há dois caminhos: a submissão passiva ou a ação violenta. "Há, porém, uma terceira alternativa: a luta por meio da ação não violenta" (How Nonviolent Struggle Works, introdução, tradução minha). E ele aponta a razão: luta não violenta é muito mais efetiva que a luta violenta.

A lição do velho dos macacos

 No capítulo 3 de From Dictatorship to Democracy, Sharp conta uma fábula chinesa do século XIV, de Liu Ji. No estado de Chu, um velho vivia de manter macacos a seu serviço. Todo dia mandava o mais velho levar os outros à montanha para colher frutas, e cada macaco entregava a ele um décimo da colheita. Quem não entregasse apanhava. Um dia, um macaco pequeno perguntou: foi o velho quem plantou as árvores? Os outros responderam que não, que elas nasceram sozinhas. Então, continuou ele, por que dependemos do velho? Por que todos temos de servi-lo? Antes que terminasse a frase, os macacos "despertaram". Naquela noite derrubaram a cerca, levaram as frutas e nunca mais voltaram. O velho morreu de fome.

 

A moral é a tese central de Sharp, e é simples: ditadores precisam da ajuda dos governados. O poder deles tem seis fontes (autoridade, recursos humanos, habilidades e conhecimento, fatores intangíveis, recursos materiais e sanções), e todas dependem de que a população e as instituições continuem cooperando. Quando a cooperação recua, diz ele, o poder "morre de fome política" (From Dictatorship to Democracy, cap. 3, tradução minha).

 

A ideia não é dele. Em The Politics of Nonviolent Action (volume 1, "Poder e Luta"), Sharp lembra Étienne de La Boétie, no século XVI: não apoie o tirano e você o verá "como um grande colosso cuja base foi roubada", afundando pelo próprio peso. E lembra Maquiavel e John Austin, que chegaram a conclusões parecidas.

 

Agora aplique ao caso. Quem coopera com o Regime? A resposta honesta não é "meia dúzia de ministros". É uma cadeia inteira de gente que executa, valida, divulga e aplaude: servidores, advocacia, academia, imprensa, plataformas, tribunais inferiores. Cada elo é uma decisão individual de colaborar, e decisão individual pode mudar. (Sim, alguns elos também têm medo. Sharp sabe disso, e trata do medo adiante.)

 Roteiro de leitura

 Sharp (1928–2018) escreveu muito, mas quatro textos formam a escada principal, do mais curto e prático ao mais volumoso. Dois outros livros entram como complemento, logo abaixo. Nas citações ao longo do texto, indico o título original em itálico e o capítulo; as traduções são minhas.

 Da Ditadura à Democracia (From Dictatorship to Democracy, 1993). Comece por aqui. Foi escrito a pedido de um democrata birmanês exilado, o editor U Tin Maung Win, e publicado em Bangkok. Sharp não conhecia Mianmar bem o bastante e fez uma análise genérica, que acabou lida em muitos outros países. Os capítulos 2 a 5 são o núcleo: os perigos da negociação (2), a origem do poder (3), as 17 fraquezas das ditaduras (4) e o exercício do poder pela desobediência política (5). Os capítulos 6 e 7 tratam de planejamento estratégico, e os finais, da execução da estratégia e da construção de uma democracia duradoura. Traz, no apêndice, a lista das 198 formas de ação não violenta.

 

  1. Como Funciona a Luta Não Violenta (How Nonviolent Struggle Works, 2013). Versão condensada da obra maior. Leia para entender por que as pessoas obedecem (hábito, medo de sanções, obrigação moral, interesse próprio, entre outras razões), por que a obediência é "essencialmente voluntária" e como funciona o jiu-jitsu político: a repressão brutal contra um movimento disciplinado e não violento se volta contra quem a pratica. Apresenta também os quatro mecanismos de mudança: conversão (o mais raro), acomodação, coerção não violenta e desintegração.

 

  1. Autoliberação (Self-Liberation, 2009, com Jamila Raqib). É o manual de planejamento. Sua tese: é "tolice, e potencialmente desastroso" iniciar uma luta, ou sequer tentar preparar uma grande estratégia, sem três tipos de conhecimento — da situação de conflito, da técnica da ação não violenta e do pensamento estratégico. E os três precisam estar na cabeça das mesmas pessoas, não espalhados por três grupos que se reunem numa sala.

 

  1. A Política da Ação Não Violenta (The Politics of Nonviolent Action, 1973). A obra-mãe, em três volumes: Poder e Luta, Os Métodos da Ação Não Violenta e A Dinâmica da Ação Não Violenta. A cópia que tenho passa de 900 páginas. Não se lê de uma vez; consulta-se. O segundo volume cataloga as 198 formas de ação, em três grandes famílias: protesto e persuasão, não cooperação (social, econômica e política) e intervenção não violenta.

 Complementos:

 5. Poder Social e Liberdade Política (Social Power and Political Freedom, 1980). Coletânea de doze capítulos, de 1980, com introdução do senador Mark Hatfield, posterior à obra-mãe. O capítulo 2 é o mais importante para nós: segundo Sharp, as formas institucionais de governo são "secundárias em importância" frente à distribuição real do poder na sociedade, e uma constituição, sozinha, não basta para conter quem está disposto a violar as regras. Leia também o capítulo 4 ("Enfrentando ditaduras com confiança"), o 5 (desobediência civil em uma democracia; atenção: ela implica violar a lei, e não é o que este texto propõe), o 7 (os problemas estratégicos da resistência sul-africana) e o 12 (fortalecimento popular), além do Apêndice B, com vinte passos para desenvolver e avaliar sanções não violentas. Leia depois do nº 2, quando a pergunta passar de como lutar para que tipo de sociedade impede o retorno da tirania.

 

  1. Travando a Luta Não Violenta (Waging Nonviolent Struggle, 2005). Escrito com Joshua Paulson, com mais de 500 páginas e quatro partes: a base teórica (poder, técnica, métodos); 23 casos do século XX; a dinâmica da luta (repressão, disciplina, jiu-jitsu político, quatro mecanismos, redistribuição do poder); e o planejamento estratégico, com um modelo de "estimativa estratégica" no Apêndice A. Para o nosso tema, interessam os casos de golpes e ditaduras: a resistência civil ao golpe de Kapp na Alemanha (1920), o golpe militar na França (1961), o golpe linha-dura na URSS (1991), a defesa da democracia na Tailândia (1992) e a queda do ditador na Sérvia (1996–2000). Leia depois do nº 3, como ponte entre o manual e a história.

 

Um conselho de quem já viu muito leitor desistir na primeira página de um livro grosso: leiam o nº 1 de ponta a ponta, o nº 3 com lápis na mão e deixem o nº 4 para depois.

 

Os cinco erros que Sharp não perdoa

(i)    Negociar o inegociável. "Resistência, e não negociação, é essencial para a mudança em conflitos nos quais questões fundamentais estão em jogo" (From Dictatorship to Democracy, cap. 2, tradução minha). Para ele, o resultado de uma negociação não reflete quem tem razão, e sim quem tem poder. Quem chama de "pacificação" o aperto de mão com o Regime, sem ter antes mudado a correlação de forças, está obtendo uma paz que, como adverte Sharp no mesmo capítulo, "é muitas vezes apenas a paz da prisão ou da sepultura".

(ii)  Esperar um salvador de fora. O capítulo 7 de From Dictatorship to Democracy é claro: a força principal da luta "deve vir de dentro do país". Pressão internacional, sim, mas de forma suplementar, e na medida em que a luta interna a estimula. Nenhuma denúncia no exterior, por mais bem escrita, substitui o povo organizado em casa.

(iii)                  Misturar violência com resistência civil. A disciplina não violenta "deve ser mantida apesar das provocações e brutalidades" do regime (From Dictatorship to Democracy, cap. 5). O motivo é estratégico, não só moral: a violência desloca a disputa para o terreno em que o Regime é mais forte, e destrói o jiu-jitsu político, que depende de o público ver a brutalidade contra quem não revida. Este ponto não admite meio-termo. Quem prega ruptura armada ou golpe não está lendo Sharp, está lendo outra coisa. Em Waging Nonviolent Struggle (cap. 6), o golpe de Kapp na Alemanha de 1920 cai diante da não cooperação civil: greve geral e servidores que se recusaram a assinar deixaram os golpistas sem sequer o dinheiro para pagar os soldados.

(iv) Improvisar. Os levantes do passado, diz o capítulo 6 de From Dictatorship to Democracy, foram "quase sempre não planejados e essencialmente acidentais", e por isso muitos colapsaram diante de repressões imprevistas. Não se deve confundir entusiasmo com estratégia. Pessoas excessivamente emocionadas acabam, muitas vezes, atrapalhando o processo. Também não se deve apostar em um ou dois métodos (greve e passeata, por exemplo); Sharp lista 198 (apêndice do mesmo livro).

(v)  Mirar só a queda do tirano. O objetivo, escreve ele no capítulo 6 de From Dictatorship to Democracy, "não é simplesmente destruir a ditadura atual, mas instalar um sistema democrático". Quem só quer derrubar corre o risco de produzir outra tirania. Para o leitor brasileiro, isso quer dizer ter resposta pronta para a pergunta: o que põe no lugar? (Resposta curta e mínima: tribunais com competência limitada, publicidade dos atos e responsabilização de quem os pratica. O resto é conversa para outro texto.) Olavo de Carvalho, citando Nietzsche, sempre dizia que “só se destrói completamente aquilo que se substitui”.

Por onde começar no Brasil

Nada do que segue é receita de Sharp, que insistia que não existe projeto único para todas as lutas. São passos que decorrem dos textos, dentro da lei e sem violência.

 

a)     Estudar em grupo. Forme um círculo de leitura. Começar por Da Ditadura à Democracia, um capítulo por encontro, já é um ato de organização. Além de aprender, laços de solidariedade são formados, o que é essencial.

 

b)     Mapear os pilares. Quem executa, valida e divulga as decisões que você considera arbitrárias? Onde a cooperação pode ser legalmente retirada ou condicionada? Quais são as instituições públicas e da sociedade civil que apoiam o regime?

 

c)     Fortalecer instituições independentes. Sharp insiste que associações, igrejas, entidades profissionais, imprensa e escolas fora do controle estatal são a base da resistência (From Dictatorship to Democracy, cap. 3). Se elas foram cooptadas, reconquistá-las ou criar novas é parte da luta. Em Social Power and Political Freedom (cap. 2), Sharp vai além: sem uma sociedade com poder distribuído e capaz de agir por conta própria, nem a constituição nem os mecanismos formais de controle seguram quem decide ignorá-los. Esperar que o Senado ou uma PEC resolvam o problema, sem gente organizada por trás, é um erro.

 

d)     Escolher campanhas limitadas, com objetivo claro. Em vez de "derrubar o Regime", uma meta que se possa ganhar e medir: a publicidade dos inquéritos, o fim das decisões monocráticas em matéria de liberdade de expressão, a aplicação da Lei da Dosimetria, uma PEC específica. Vitória pequena dá confiança para a seguinte.

 

e)     Agir à luz do dia. Sharp aponta que o sigilo alimenta o medo e a desconfiança dentro do movimento, enquanto a abertura passa imagem de força (From Dictatorship to Democracy, cap. 5). As exceções (publicações clandestinas, coleta de informação) são raras, e em geral desnecessárias onde a lei ainda protege quem fala.

 

f)      Treinar disciplina. Quem for à rua tem de saber, de antemão, que não vai revidar. Um único episódio de violência vale mais para o adversário do que mil discursos. O 8 de janeiro que o diga.

 

O velho dos macacos só dura enquanto os macacos não perguntam. Leiam. Estudem. Organizem-se. E sem violência, nem por provocação, nem por desespero.

 

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A vingança de Roberta Luchsinger
Lula jogou sua "pilantra"aos leões, mas isso ficou longe de sair barato

Quando eu soube que a CNN entrevistaria Roberta Luchsinger poucos dias antes das eleições, fiquei na dúvida: ou ela fora convencida ($$$) pelo PT para negar tudo ou, abandonada, resolveu jogar tudo no ventilador. Aconteceu a segunda hipótese. A mulher estava simplesmente possessa.

Se eu tivesse visto o vídeo que André Janones havia publicado poucas horas antes, já saberia a resposta. Ele havia dito à militância que, dali a pouco, Lula receberia “o ataque mais baixo da história da política brasileira”. Dali mesmo, já lançou a ordem: “Não comentem, você não vai nem ler a matéria, porque ler já é engajar (...) Então, a orientação é essa. No WhatsApp comandado por Janones, , a ordem circulou em versão enxuta: não abra, não leia, não clique, não comente. Não deu muito certo. Só se fala disso.

É a estratégia do avestruz (que acabou colocando a cabeça pra fora). Segundo o Google Trends, a busca pelo nome de Roberta saiu de quase zero para mais de 50 mil pesquisas durante a entrevista. Claro! Nada atiça tanto a curiosidade humana quanto uma proibição. Quem manda não ler é porque já leu – e todo mundo vai querer saber por que não pode ler também.

Luchsinger apareceu na entrevista buscando amenizar sua imagem: usava uma blusa florida, bem feminina e delicada, de mangas bufantes, da marca australiana Zimmermann. Cabelo arrumado, maquiagem. A estética era claramente uma preocupação para ela, que sempre pareceu ser muito vaidosa, inclusive no âmbito social, ao mencionar com frequência que era “sócia de Fábio”.

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Segundo a Veja, em março, um emissário de Roberta teria avisado auxiliares de Lula que ela não “cairia sozinha” se fosse abandonada. Em agosto, na Globo, Lula disse: “não conheço essa moça, nunca vi essa moça na minha vida”. Surgiram ao menos 12 fotos com ela.

Há uma máxima antiga da literatura inglesa: o inferno não tem fúria comparável à de uma mulher desprezada. Lula chamara Roberta de “pilantra” em pelo menos três oportunidades, a primeira delas durante uma entrevista no Jornal Nacional. Lembro bem do pensamento que me ocorreu quando vi: “ela tem pinta de que não vai engolir essa”. Logo depois, saiu na imprensa a informação de que o entorno de Lula estaria preocupado com a reação de Roberta, que passou a ser chamada de “mulher-bomba”. A preocupação fazia sentido: ela repetiu “pilantra” a cada resposta. Parecia ter ruminado a ofensa desde o dia em que Lula a pronunciou no horário nobre.

A história do Brasil conhece o enredo. No início de 2000, depois da separação, Nicéa Camargo, então Nicéa Pitta, foi à TV acusar o ex-marido, o prefeito de São Paulo Celso Pitta, de pagar mesada a vereadores e de manter dinheiro no exterior. O poder tentou desqualificar a mulher. ACM a chamou de “louca” e “prostituta” (acabou condenado a indenizá-la). Anos depois, documentos da CPI do Banestado confirmaram a conta que ela dizia existir. Ressentimento é um baita combustível para desfechos políticos espetaculares.

Logo no início da entrevista, Roberta diz que nem sabe mais se pode se considerar amiga de Lulinha, já que, depois de muitos anos de amizade, ele nunca a defendeu. Ela disse:

“a partir do momento em que ele se cala, ele não é meu amigo. Eu fui amiga dele (...) o papel do amigo é ligar e falar a verdade: ‘olha, pai, ela não é uma pilantra. A polícia está investigando. Se ela fez alguma coisa errada, se eu fiz alguma coisa errada, isso daí vai ser provado. A polícia está aí para investigar’”.

Vários nomes conhecidos apareceram de relance: Marcola (Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete de Lula), Swedenberger Barbosa, o Berger, ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde. Foram citados, não destrinchados. É a técnica do trailer: mostra-se o bastante para o público querer o filme e guarda-se o final para a estreia – que será a delação.

Houve também a inserção de um nome novo nessa novela: Amauri Pinha. Perguntada se sabia da participação de Lulinha no acerto do contrato de uma construtora com o governo federal, Roberta respondeu que sim e apontou “o vizinho dele”, presidente do Conselho de Administração da Empresa Construtora Brasil (ECB), do grupo português Mota-Engil, desde janeiro de 2025. Segundo ela, a empresa acumula R$ 2 bilhões em contratos desde então, e isso “tem que ser questionado”.

Atenção: ela não disse que há ilegalidade. Lançou a pergunta e a deixou na mesa. O Mota-Engil não se manifestou. A Secom veio dizer que “não existe nenhum contrato do governo federal com a Roberta”, como se alguém tivesse dito o contrário (a própria Roberta afirma que nunca teve contrato público). A pergunta era sobre a construtora. Para quem quiser ir atrás: o Poder360 lembra que a ECB tem um contrato de R$ 4,4 bilhões com a Petrobras na Reduc, assinado em 2025, e que a Mota-Engil venceu em 2026 o leilão da PPP do túnel Santos-Guarujá. Pode estar tudo regular. Mas “tudo regular” é conclusão que se tira depois de investigar, não antes de perguntar.

Roberta ainda lançou uma bomba ideológica no colo do seu agora desafeto. Ela disse que Lula “preservou todos os homens e me jogou, a única mulher, aos leões”. E foi além: um homem desses não pode falar de feminismo, de feminicídio ou de machismo, porque ele é o próprio machista. E contou, de brinde, que as duas noras do presidente (duas mulheres da família dele!) disseram a ela que ela não é pilantra. Lula, não.

Pensem na construção da frase. O filho foi poupado. Marcola foi poupado. Os ministros foram poupados. Sobrou a mulher, com duas filhas, rebatizada de “Vorcaro feminino” (note que, para caber na comparação, ela precisou do “feminino”). Janja fez tanto esforço para tentar colar em Lula a imagem de protetor das mulheres, para agora chegar Roberta e estragar tudo. O marqueteiro, uma hora dessas, a oito dias da urna, deve estar tendo uma síncope.

Outro trecho vai render. Roberta disse que um presidente que não sabe o que se passa na antessala dele, “ou ele é um mentiroso” [...] “ou ele está senil, esclerosado”, repetindo o que Ciro Nogueira já havia sugerido outrora. Mais adiante, afirmou que Lula sabe, sim, que ela é a melhor amiga do filho, que o convívio era diário, no Natal, no Ano Novo, no Carnaval, e que, se ele esqueceu, talvez seja a idade. Para ilustrar, ela fez questão de lembrar que Lula acabara de dizer que não sabia que o Bolsa Família não havia sido reajustado.

Roberta usa a lógica: se o presidente sabia e negou, mentiu. Se não sabia, não está no comando de quem frequenta a antessala do Palácio. E se esqueceu, o problema é de outra ordem. Qualquer das três hipóteses é péssima para quem pede mais quatro anos.

Ela avisou que quer delatar e que não vai poupar nem Lula nem Lulinha. Eu acho que fará. O cálculo é simples: quem não tem pai presidente nem mãe presidente precisa de acordo.

Só não esperem milagre antes do dia 25. Delação se negocia, se formaliza e se homologa, e ainda precisa de corroboração, porque ninguém é condenado só pela palavra do delator.

Roberta não é santa. É investigada pela PF por suposto tráfico de influência e precisará provar cada vírgula. Mas delator nunca é santo: se fosse, não teria o que delatar.

Roberta afirma estar sendo ameaçada. Eu jamais duvidaria disso. Imagine abrir o celular e encontrar, em média, cinquenta ameaças de morte por dia. Foi o que ela disse na CNN. Segundo ela, as duas filhas, uma delas menor de idade, também são alvo de ameaças de morte e de estupro desde que Lula a chamou de “pilantra” em rede nacional. E avisou: depois da entrevista, esse número tende a explodir. Ela diz, com todas as letras: “se alguma coisa acontecer comigo ou com minhas filhas, a culpa é do Lula”.

Ainda nesse capítulo sobre as ameaças, Roberta contou que uma das filhas sofreu um acidente de carro em São Bernardo do Campo, há cerca de duas semanas, e que ela sequer pôde ir ao local, porque não pode sair de São Paulo. “Até agora é um mistério”, disse. A polícia investiga. Contou ainda que ninguém ligou para saber se a filha estava viva ou morta, e que fará o que for preciso, como mãe, para protegê-la.

Ela não afirmou que foi um atentado, e nem deu detalhes do ocorrido. O fato é que, se o acidente foi estranho, é óbvio que a hipótese não pode ser descartada, considerando as circunstâncias de Roberta. Quem olha para o carro acidentado da filha e, no meio de tudo isso, não descarta que aquilo seja mais que um acidente, está dizendo sem dizer que do outro lado há gente capaz de mandar recados. Ela usou as seguintes expressões: “boi de piranha”, “X na testa”. Ela não disse que enxerga o PT como uma máfia, mas é isso que me parece possível extrair de suas palavras.

Os aliados do presidente dirão que ela instrumentaliza a tragédia da filha para influenciar a eleição. Podem dizer. Mas continuam sem responder à única pergunta que interessa: alguém já checou o acidente? Se o medo for exagero, a perícia pode dissipar. Se não for, o país precisa saber.

Esquerdistas sentiram o baque, mas não se fizeram de rogados. Foram às redes sociais dizer que Luchsinger não falou nada de mais, que não apresentou prova alguma. Só esqueceram de dizer que ela não falou mais aos jornalistas porque sua intenção é – como disse com todas as letras – obter um acordo de delação premiada. Se ela entregasse tudo ali, de graça, aos jornalistas, não teria o que oferecer em uma futura delação. Quem despeja tudo na televisão queima a munição que deveria oferecer ao Estado. Óbvio ululante. Roberta disse que tem detalhes que não estão nas mensagens e que colaborará quando a Justiça entender oportuno.

Congressistas pediram a inclusão de Roberta no programa federal de proteção a testemunhas, com o senador eleito Van Hattem à frente.

Roberta, claramente, também falou para se proteger. No Brasil, quem sabe demais e fala de menos tem uma grande predisposição a ter sua vida abruptamente interrompida. Ao falar em rede nacional, Roberta se tornou alguém que não pode simplesmente sumir sem que milhões perguntem para onde foi. Em outras palavras: ela não quer ser “celsodanielizada”.

Roberta desabafou, vingou-se, protegeu-se, lavou a alma com uma série de adjetivos contra Lula que, certamente, são endossadas por grande parte dos brasileiros: mentiroso, covarde, mau-caráter, senil, esclerosado, canalha. Foi uma metralhadora. Que venha a delação premiada.

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